História do (Quase) Hoje

História do (Quase) Hoje

terça-feira, 15 de julho de 2014

A necessidade da teoria na explicação histórica

"Há alguns anos atrás, um colega começou a ensinar uma disciplina sobre o período fascista na Itália. Não havia nada de incomum no conteúdo da disciplina em si. Focava-se no surgimento do Fascismo na Itália, as razões para a subida de Mussolini ao poder, e vários aspectos da sociedade italiana durante o período do próprio regime fascista. Uma disciplina como aquela é bem típica das opções especializadas que qualquer graduando esperaria estudar numa universidade hoje. Como uma forma de introdução ao tópico, o professor decidiu perguntar aos alunos que tipo de regime a ditadura de Mussolini era. Era uma ditadura autoritária, um regime fascista ou um estado totalitário? O que queremos dizer com termos como “fascista” ou “totalitário”? Ele perguntou. Que definição de “fascismo” podemos oferecer que dê conta de todos os movimentos e regimes caracterizados como “fascistas”? O conceito de “totalitarismo” é válido? É correto tratar conjuntamente regimes tão distintos quanto a Alemanha nazista e a Rússia stalinista? Essas são, você poderia pensar, perguntas perfeitamente legítimas com as quais começar uma disciplina universitária. Os alunos não concordaram. Um membro particularmente vocífero do grupo reclamou que “isso não era história, e que não era o que elas tinham vindo estudar na universidade”. Outros membros do grupo concordaram com o aluno dissidente, e o infeliz professor sentiu-se obrigado a defender sua introdução de questões conceituais à disciplina.


Esse aluno tinha razão? A história, certamente, centra-se no que aconteceu e não na construção de modelos de diferentes tipos de sociedades ou de fenômenos sociais. Por que o professor simplesmente não se ocupou em dizer-lhes o que ocorrera na Itália antes que Mussolini subisse ao poder, dando-lhes os “fatos” da crise política que levou à designação de Mussolini como primeiro ministro em 1922? isso parecia ser o que os alunos queriam aprender em sua aula. Por outro lado, contudo, não podemos estudar algo sem primeiro conhecer aquilo para o qual estamos olhando. Qualquer estudioso precisa ser capaz de usar uma linguagem precisa. Biólogos precisam saber que “apesar das aparências, a baleia não é um peixe”, como E. H. Carr comentou quando refletia sobre uma questão um pouco diferente da filosofia da história.1 Entretanto, como os biólogos sabem que uma baleia não é um peixe? Tendo critérios muito claras para categorizar peixes e mamíferos, e observando que a baleia de forma nenhuma se encaixa na categoria de “peixe”.


E no quê isso é relevante para o estudo da ditadura italiana de Mussolini? O Fascismo começou na Itália, e a Itália foi o primeiro estado fascista, então para quê a necessidade de discutir a natureza do regime? O regime de Mussolini proclamou-se como “fascista”, então por quê a necessidade de haver mais debates? Há, entretanto, problemas a serem considerados. Considere em que medida os ideais do movimento fascista foram concretizados durante o período do regime. Pode-se dizer que o regime tenha encarnado esses ideais? Se não, pode-se dizer que seja realmente “fascista”? O regime tem frequentemente sido caracterizado como “totalitário”, mas não podemos identificá-lo assim sem uma definição adequada do termo. Os historiadores têm até mesmo questionado se a Itália fascista e a Alemanha nazista deveriam ser tratadas juntas, e se as diferenças entre os dois regimes não sobrepujavam as semelhanças.


Este não é o lugar onde tentar responder a nenhuma daquelas perguntas, mas o simples fato de que sejam perguntas de importância histórica levantam questões sobre como devemos abordar a história, e qual é seu propósito, no fim das contas. Sugere que precisamos de algum tipo de quadro explicativo para que olhemos para as sociedades que desejamos estudar como historiadores: que não podemos apenas “mergulhar” e começar a olhar para a “evidência”. Por outro lado, você ainda pode estar se perguntando se precisamos considerar aquelas questões. Certamente, há definições do “senso comum” para qualquer conceito que possamos desejar empregar como historiadores, e todos nós instintivamente conhecemos o sentido de termos como “classe”, “Estado-nação”, “nacionalismo” ou “fascismo”? Há definições não comumente aceitas desses termos que não precisem ser desempacotados, que os historiadores possam empregar em sua linguagem cotidiana sem a necessidade de mais ginástica intelectual?


Tome uma das ferramentas conceituais mais básicas do historiador: “classe”. Agora pense sobre ela por um instante. Você pode sentir que seja óbvio a que classe qualquer indivíduo pertença, e que não haja nenhuma necessidade para se discutir a questão. A classe operária, por exemplo, compreende todos aqueles que trabalham com suas mãos e realizam trabalhos manuais – não é? Bem, considere o caso dos artesãos do século dezoito que não apenas usavam ferramentas ou maquinaria para produzir bens, mas que também eram donos das ferramentas ou maquinarias com as quais trabalhavam, e que, assim, trabalhavam para si mesmos. Eles eram da classe operária? Se eles eram autônomos, isso significa que pertenciam a uma classe diferente daqueles que realmente não tinham nada além de sua própria força de trabalho para vender? Traga o problema para os dias atuais. E a questão do trabalho manual? Olhe para a sociedade contemporânea e considere quão fácil é identificar uma classe operária. Se considerarmos os trabalhadores numa linha de montagem duma fábrica de automóveis, então não teremos muita dificuldade, eles estão criando riqueza para um empregador enquanto realizam trabalho manual, então são, obviamente, da classe operária. Mas e os trabalhadores de funções mais características dos empregos de fins do século vinte: aquelas pessoas que trabalham no setor de serviço, por exemplo? Ser um recepcionista, uma secretária ou um vendedor por telefone torna um indivíduo membro da classe operária? Trabalhar numa loja de hambúrguer é trabalho manual? Tais trabalhadores “fazem” hambúrgueres, ou simplesmente o entregam para os clientes? A montagem dum hambúrguer constitui um ato de “acrescer valor” à matéria-prima?


Tais problemas de explicação histórica exigem o recurso a um corpo de conhecimentos geralmente chamado de “teoria”. O sociólogo Anthony Giddens vê a teoria como fundamental à sociologia por constituir “uma tentativa de identificar propriedades gerais que explicam eventos regularmente observados”. Ele também sugere que “Enquanto teorias tendem a estar ligadas a abordagens teóricas mais amplas, elas também são fortemente influenciadas pelos resultados de pesquisas que geram”.2 A teoria, assim, permite generalizações estruturadas sobre o mundo: em outras palavras, [permite-nos] mover além das descrições de lugares e tempos particulares para uma discussão de propriedades gerais de fenômenos sociais particulares. O tipo de fenômenos sob discussão poderia ser qualquer um, desde um modelo de movimentos e estados fascistas até um conceito de revoluções sociais, ou um esquema com diferentes tipos de sociedades existentes em diferentes períodos históricos. A teoria é particularmente importante na explicação da mudança histórica. Entretanto, enquanto a introdução de teoria à História tem o potencial de resolver muitos problemas, também tem sido a fonte de muitas controvérsias. A primeira área de controvérsia é indicada pela declaração de Giddens de que a teoria é “um elemento essencial de todo o trabalho sociológico”. A maior parte das teorias empregadas pelos historiadores originam-se nas ciências sociais, e há aqueles que pensam que deveria permanecer assim. Alguns historiadores são ainda céticos em relação ao uso em sua disciplina de conceitos tomados por empréstimo das ciências sociais. Outros rejeitam a possibilidade de se generalizar sobre o curso da história completamente, ou mesmo de se conhecer a verdade sobre o passado. O uso da teoria pelos historiadores é um problema comparativamente novo, como aponta John Tosh. “Para a maioria dos historiadores, até fins do século dezenove, esse não era, na prática, um grande problema, já que seu interesse tendia a estar confinado à história política e constitucional; assim, uma noção de organização política era todo o equipamento conceitual exigido”. Mas Tosh também afirma que a tendência mais recente de dividir o estudo histórico em sub-especializações exige “uma grande capacidade de pensar em termos de abstrações”.3 Como escopo da disciplina expandiu-se, também expandiu-se o número e os tipos de perguntas feitas pelos historiadores.


Pensemos por um instante na história como uma disciplina. A história, como uma disciplina, caracteriza-se como debate. Esse debate não é sobre a crônica de eventos. É sobre a maneira como interpretamos tais eventos. Os historiadores não debatem sobre se a Batalha de Hastings ocorreu em 1066 ou 1067. O debate sobre a Revolução Francesa não se centra em quando ela aconteceu, os historiadores debatem sobre o significado dela como um evento; seu tempo é importante apenas para o que nos diz sobre o estado da sociedade e da política naquele ponto. Por exemplo, a revolução foi causada pelo surgimento duma nova classe (a burguesia) na França? Frequentemente, os historiadores preocupam-se com a identificação de causas para um evento. Provavelmente, as perguntas mais comumente feitas em todos os níveis do estudo histórico relacionam-se com as causas da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais. Usualmente, um historiador atribuirá várias causas para o mesmo evento. Mas, como E. H. Carr diz: “O candidato que, num exame, em resposta à pergunta “Por que a revolução irrompeu na Rússia em 1917?”, apresentasse apenas uma causa, teria muita sorte de ser aprovado num nível de terceira classe”.4 O historiador, assim, lida com uma multiplicidade de causas. Frequentemente, o historiador identificará vários níveis causais: econômicos, políticos, ideológicos e pessoais. Isso levanta o problema de como esses diferentes níveis causais se relacionam entre si. Um é maior que outro? Como deveríamos lidar com um vasto número de fatores causais que contribuem com a realização de eventos singulares?


Obviamente estamos argumentado aqui que o uso de teoria pode ajudar os historiadores a lidar com a natureza complexa dos problemas que estudam. Entretanto, se os alunos dissidentes do curso sobre a Itália fascista ainda estivessem conosco, talvez ainda não estivessem convencidos por esse argumento. Eles poderiam ainda desejar levantar objeções à introdução da teoria à disciplina. Os alunos (agora irritados) poderiam perguntar, por quê os historiadores simplesmente não se prendem aos fatos? Por quê os historiadores simplesmente não nos dizem o que aconteceu durante a Revolução Industrial ou a Revolução Francesa? Por quê eles simplesmente não concordam numa interpretação sobre por que a Segunda Guerra Mundial emergiu, e se agarram a isso? Bem, a resposta breve é: todos os historiadores são tendenciosos, e a inclinação individual do historiador tem um efeito no tipo de história que escreverá. Pense sobre qualquer conflito armado. Por exemplo, pode não ser surpreendente aprender que os historiadores ingleses, franceses e alemães têm diferentes interpretações da Batalha de Waterloo, ou da Primeira Guerra Mundial. O sentimento nacional frequentemente pode desempenhar um papel na interpretação de eventos dum historiador. Mas esse não é o único tipo de inclinação que um historiador pode exibir. A inclinação política é de importância crucial no tipo de história que um historiador produzirá. Também é de importância crucial no tipo de teoria que favorecerá ou adotará. Isso é igualmente verdadeiro no que concerne a historiadores que afirmam ser “objetivos”, “não-teóricos” ou “profissionais”. Historiadores que afirmam não ter nenhuma visão ideológica estão, de fato, operando um tipo de truque de confiança profissional em seus leitores (estejam eles cientes disso ou não). Isso é meramente uma forma de vender suas próprias crenças sob a capa de “objetividade”. Então a teoria não é um adjunto, um extra optativo, à história “real”. É uma parte intrínseca do processo de escrita histórica. Ela também não deveria ser vista como um tipo de obstáculo, ou uma mera forma de tornar um tema difícil ainda mais difícil. O uso da teoria pode realmente ajudar-nos a explicar os eventos que estudamos. […]"



MACRAILD, Donald M.; TAYLOR, Avram. Social Theory and Social History. [Teoria Social e História Social] Nova York: Palgrave MacMillan, 2004. p. 1-4. [Tradução livre de Gibson da Costa do original inglês.]


NOTAS:

1  E. H. Carr, What is History? (1988), p.56. Carr faz esse comentário em relação à questão de se a História é uma ciência. Uma discussão útil encontra-se em R. J. Evans, In Defence of History (1997), pp. 45-74.

2  A. Giddens, Sociology (1997), pp. 45-74.

3  J. Tosh, The Pursuit of History (Harlow, 2000 edn), p. 135.

4  Carr, What is History?, p. 89.

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